A História da Lavagem da Escadaria
O ritual conhecido como lavagem da escadaria da Catedral Metropolitana de Campinas tem suas raízes em uma tragédia social que remonta há mais de quatro décadas. A cerimônia, que se tornou um patrimônio imaterial da cidade em 2022, remete a um evento que ocorreu em 1981, quando Nengua Dya Nikisi, também chamada de Mãe Dango, foi agredida enquanto realizava sua tarefa como funcionária de limpeza urbana. Na época, ela usava um fio de conta, símbolo de sua fé no Candomblé, quando foi ofendida em frente à Catedral.
Nesse contexto, as comunidades de Candomblé e outras religiões de matriz africana decidiram instituir um ritual que reverberasse resistência, vida e purificação, unindo os fiéis em um ato de celebração e respeito ao patrimônio cultural e espiritual.
Significado Cultural e Religioso
O ritual da lavagem não é apenas uma homenagem, é uma forma de resistência cultural. A prática tem origem nas tradições das comunidades afro-brasileiras, especialmente entre os seguidores do Candomblé, reconhecendo e reverenciando a memória do povo Bantu, do qual muitos dos negros escravizados trazidos ao Brasil faziam parte. Neste ato, a derramamento de água de cheiro é visto como um símbolo de renovação e esperança.

Além disso, o evento busca conscientizar sobre intolerância religiosa e destaca a importância de respeitar as diferentes expressões de fé presentes na sociedade, promovendo um espaço de convivência harmoniosa entre as diversas crenças.
A Contribuição da Mãe Dango
Mãe Dango é uma figura central na popularização e perpetuação desse ritual. Ela desempenhou um papel crucial ao organizar a primeira lavagem após o ataque que sofreu, inspirando outras mulheres e comunidades a se unirem nessa cerimônia. Mãe Dango sempre enfatizou a importância de criar laços com a comunidade de Campinas, levando a cerimônia além do espaço religioso, inserindo-a na tessitura social da cidade.
Ela comentou em várias ocasiões que o ato de fazer a lavagem da escadaria é, antes de tudo, uma oferta ao povo de Campinas, um presente que simboliza gratidão pela acolhida recebida na cidade. Sua dedicação e espírito comunitário ajudam a manter a chama de tradições tão essenciais para a identidade local.
A Evolução do Ritual ao Longo dos Anos
Desde sua origem, a lavagem da escadaria sofreu diversas transformações. Inicialmente, era um ritual restrito à comunidade do Candomblé, mas com o passar do tempo, tornou-se um evento inclusivo que atrai pessoas de várias origens e religiosidades. O evento, que acontece todos os anos no Sábado de Aleluia, passou a contar com a participação de grupos de dança, música e outras manifestações culturais que enriquecem ainda mais o ritual.
O aumento da popularidade da lavagem da escadaria ao longo dos anos também fez com que se tornasse um marco turístico, atraindo visitantes de diversas partes do Brasil. Ao mesmo tempo, a celebração promove um espaço de educação sobre a história e a vivência das religiões afro-brasileiras, ajudando a desconstruir preconceitos e a promover a tolerância.
Eventos Relacionados à Cerimônia
A lavagem da escadaria é frequentemente acompanhada por uma série de eventos culturais que ocorrem nas semanas anteriores e posteriores à cerimônia. Essas atividades incluem palestras, exibições artísticas e workshops, que abordam temas como a cultura africana, a importância do Candomblé, e os direitos das religiões de matriz africana.
Essas iniciativas ajudam a sensibilizar a população e a criar um ambiente de diálogo e respeito, favorecendo uma melhor compreensão entre as diversas crenças e práticas religiosas presentes na cidade.
Cultura Popular e Expressões Artísticas
A lavagem da escadaria não é apenas um ritual religioso, mas também uma rica expressão cultural que se manifesta em danças, músicas e performances. Na escadaria da Catedral, grupos culturais se revezam em apresentações que exaltam a cultura afro-brasileira, utilizando elementos como dança, percussão e cânticos.
Essas expressões artísticas são fundamentais para manter viva a tradição e são uma forma de celebrar a ancestralidade, convidando a cidade de Campinas a refletir sobre sua história e suas raízes.
Importância da Resistência Religiosa
A lavagem da escadaria da Catedral é um poderoso símbolo de resistência não apenas contra a intolerância religiosa, mas também contra o racismo estrutural que historicamente afetou as comunidades afro-brasileiras. Através desse ato, os participantes reafirmam sua identidade e sua espiritualidade, desafiando estigmas e preconceitos.
O ato de lavar a escadaria torna-se, assim, um espaço de afirmação cultural, onde a religiosidade é exercida livremente e celebrada em coletividade, fortalecendo laços entre aqueles que ali se reúnem.
O Papel da Comunidade na Celebração
A participação da comunidade é vital para o sucesso da lavagem da escadaria. Não apenas os devotos das religiões de matriz africana, mas também cidadãos comuns se envolvem na organização e na execução do evento. Essa inclusão é o que torna o ritual tão especial — ele é uma verdadeira celebração da cidade e de sua diversidade.
A comunidade se mobiliza em diferentes frentes, desde a coleta de flores e outros elementos utilizados no ritual até a organização dos grupos culturais que atormentam o cortejo em direção à Catedral. Essa união de esforços é um exemplo do que a coletividade pode alcançar quando abraça sua história e culturas.
Reconhecimento como Patrimônio Imaterial
O reconhecimento da lavagem da escadaria como patrimônio imaterial da cidade de Campinas, em 2022, significou um marco não apenas para a comunidade do Candomblé, mas para toda a cidade. Este reconhecimento é um passo importante para garantir a valorização e a preservação da diversidade cultural e religiosa.
Ser certificado como patrimônio imaterial leva à necessidade de estudo e cuidado com essas tradições, garantindo que futuras gerações mantenham vivas suas raízes e a memória de suas origens.
Como Participar do Ritual
Para aqueles que desejam participar da lavagem da escadaria, o ritual é aberto ao público e acontece todos os anos no Sábado de Aleluia. É recomendado chegar cedo para experimentar a atmosfera festiva que antecede o evento. Participantes podem se unir ao cortejo que se inicia na Estação Cultura e segue até a Catedral, portando flores e outros itens simbólicos para a lavagem.
A experiência é enriquecedora e se torna uma oportunidade de aprendizado sobre a cultura e religiosidade afro-brasileira, além de ser uma manifestação coletiva de amor e respeito pelas tradições que moldaram a identidade de Campinas.

